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Celebrar a vida, a família e a paz Celebrar a vida, a família e a paz

Tradições

Celebrar a vida, a família e a paz

O Natal é uma festividade que celebra a união familiar, a paz e a reconciliação. É um período com um amplo conjunto de rituais. Desvendamos-lhe a origem e o porquê das principais tradições do Natal em Portugal.

O Natal é muito mais do que a celebração do nascimento de Jesus Cristo pelos católicos. Esta festividade enraizou-se em múltiplas culturas representando um período de respeito e reconhecimento dos valores humanistas como a paz e a união familiar. Em quase todos os lugares do mundo, esta data é comemorada para expressar carinho, apreço e afinidade com aqueles que nos são mais próximos.

Contudo, num país com uma tradição católica como Portugal, o Natal ganha outra dimensão espiritual e social, enraizando as muitas tradições que se celebram de norte a sul do país. Na maioria das famílias portuguesas, a casa é decorada a preceito com o presépio e a árvore de Natal. Até há relativamente pouco tempo, o presépio era a principal decoração existente na casa dos portugueses, sendo a árvore um complemento do presépio.

O Presépio

O primeiro presépio foi montado por São Francisco de Assis, em 1223. Criou peças de barro que colocou na floresta para explicar melhor o significado do nascimento de Jesus à população. Só no século XVIII é que a tradição de montar o presépio dentro de casa se popularizou na Europa.

As peças fundamentais de um presépio são o menino Jesus, José e Maria, os três Reis Magos, um burro e um boi. Não existe um limite para o número ou a dimensão das peças que se podem inserir num presépio. Tudo depende do espaço que dispõe.

Tomemos por exemplo o maior presépio do mundo em movimento, que se encontrava na freguesia de São Paio de Oleiros, em Santa Maria da Feira, e que detinha o recorde de acordo com o livro do Guiness, com mais de dez mil peças.

O presépio era uma iniciativa da empresa Cavalinho, desde 2004. Só no ano passado foi visitado por mais de 750 mil pessoas. Contudo, no passado mês de maio, o armazém onde estava guardado ardeu, perdendo por completo este importante espólio cultural. A única forma de revisitar a obra desaparecida é através de fotografias ou em vídeos como este.

O maior presépio do mundo

A paixão pelos presépios não se fica por aqui. Alenquer, por exemplo, conquistou o epíteto de “Presépio de Portugal“. A colina da vila acolhe o colorido das figuras bíblicas do menino Jesus, da Virgem Maria, de São José e dos Reis Magos. Trata-se de um presépio de figuras monumentais – desde metro e meio a seis metros de altura– que foi concebido pelo pintor Álvaro Duarte de Almeida, de acordo com a figuração da pintura portuguesa dos séculos XVI e XVII. Na localidade, existe também a recriação de um presépio vivo que conta com mais de meia centena de figurantes e encenações teatrais.

Há outras localidades que se destacam pela tradição dos seus presépios. Talvez, as mais conhecidas, além das duas referenciadas, são a de Priscos, que possui o maior presépio ao vivo da Europa, e a de Valença, que é a cidade-presépio. Existem outras referências obrigatórias como a de Vila Real de Santo António, Monsaraz, Rio Maior e Penela.

A forte relação dos portugueses com os presépios na História do país está também retratada no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, que desde o ano passado dedicou uma sala à história de figuras de presépios, produzidas em barro cozido entre o século XVI e o início do século XIX em Portugal.

Troca de presentes

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Com o lar devidamente decorado para comemorar esta importante data, os portugueses voltam-se para os presentes e a comida.

A troca de prendas é um costume relacionado com a prosperidade em diversas culturas. O ato de dar e receber presentes não é apenas social, possui um significado de abundância, de colheitas generosas e de posse de bens que permitiam alcançar a salvação “na outra vida”. A tradição de dar presentes no final de dezembro está relacionada com a celebração do solstício de inverno (Sol Invictus), que culminava numa grande festividade agrária, que incluía o intercâmbio recíproco de presentes. O Natal, que substitui essa comemoração pagã, manteve o costume, mas associado às figuras dos três Reis Magos e de São Nicolau.

A imagem do Pai Natal assenta na figura de São Nicolau, um dos mais importantes santos cristãos. Conta a história que Nicolau nasceu no século III no seio de uma família de cristãos abastados em Patara. Muito jovem, foi nomeado bispo de Mira (atual Kale, na Turquia). De personalidade bondosa, permanente boa disposição e desinteressado de bens materiais doou toda a sua fortuna aos mais necessitados acabando por viver na pobreza, justificações da sua canonização.

São vários os episódios que narram a sua generosidade, mas a relação de São Nicolau com as prendas de Natal está associada a uma história em que um comerciante não tinha dinheiro para pagar o dote das suas filhas. Nicolau terá passado junto da sua casa e atirou um saco com moedas, pela janela para a sala. Perto da lareira, algumas moedas terão caído dentro de umas meias que se encontravam a secar.

Nicolau, foi perseguido e encarcerado por ordem do imperador romano Diocleciano, naquela que foi a última e grande perseguição aos cristãos do império romano antes de se converter ao cristianismo. Continuou em cativeiro até ao perdão concedido pelo imperador Constantino, que libertou todos os cristãos.

No fim do seu cativeiro, Nicolau tinha uma idade avançada, uma grande barba branca e vestia roupa vermelha, que o distinguia como bispo. Apesar do longo período de restrição de liberdade, São Nicolau nunca perdeu a boa disposição ou a bondade.

Esta foi a imagem que se eternizou de São Nicolau. Um senhor de idade algo avançada, vestido de vermelho e com barba branca. A ideia da imagem de marca do Pai Natal a distribuir prendas pelo mundo, descendo pela chaminé, está relacionada com o poema Uma visita de São Nicolau, escrito por Clement Clarke Moore e publicado em 1823, no qual se narra como o Pai Natal passa pelas casas onde existem crianças bem-comportadas entrando pela chaminé e deixando presentes na árvore de Natal ou nas meias penduradas na lareira.

A comemoração do dia de São Nicolau faz-se no dia 6 de dezembro, data na qual se davam prendas às crianças que se portavam bem. Com a reforma luterana, a Igreja alterou esse ritual, transferindo a troca de presentes para a noite de 24 de dezembro.

Os Reis Magos, são reis

Os Reis Magos são figuras importantes do presépio e do nosso imaginário. Em alguns países, o Dia de Reis possui um grande significado. É o caso de Espanha, onde apesar de o Pai Natal estar a ganhar algum ascendente, a imensa maioria das crianças só recebe as prendas na manhã do Dia de Reis.

Os Reis Magos possuem um carácter bíblico. No Evangelho segundo Mateus, narra-se a chegada a Jerusalém de uns reis desconhecidos que chegaram do Leste perguntando pelo Rei dos Judeus. Os sábios e os sacerdotes da cidade indicaram que seguissem caminho para Belém, na Judeia, guiando-se pela estrela que já os tinha encaminhado até Jerusalém. Ao chegar a Belém, os Reis Magos ofereceram ouro, incenso e mirra à Virgem Maria.

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No país vizinho, é na manhã de 6 de janeiro que as crianças recebem as prendas. Na noite anterior, deixa-se uma taça com água e outra com pão à entrada de casa para dar de comer e beber aos camelos que transportam os Reis Magos.

Sabia que…

O dia 8 de dezembro, Dia da Imaculada Conceição, é um dia festivo que invoca a vida e a virtude da Virgem Maria, mãe de Jesus. Este dogma católico é festa universal graças ao Papa Sisto IV, em 1476. No nosso país, noutros tempos, esta era a data em que se festejava o Dia da Mãe.

No dia 25 de março de 1646, o rei D. João IV foi à igreja de Nossa Senhora da Conceição agradecer a restauração da independência de Portugal (1 de dezembro de 1640), declarando a Nossa Senhora da Conceição padroeira e rainha de Portugal. Desde esse dia, nenhum rei português voltou a usar a coroa na cabeça, um privilégio que passou a estar disponível apenas para a Imaculada Conceição.