Joana Vasconcelos:
A reinvenção do ser português

Em junho deste ano, Joana Vasconcelos tornou-se na primeira mulher e na mais jovem artista a expor Arte Contemporânea no Palácio de Versalhes. O marco funcionou como mais um sinal de algo que há muito se sabia: Joana Vasconcelos é uma das artistas contemporâneas mais reconhecidas da atualidade. Portugal agradece.

Nascida em Paris, em 1971, Joana Vasconcelos começou a expor regularmente o seu trabalho em 1994, mas foi em 2005, com A Noiva, que a artista deixou, em definitivo, o anonimato e passou a ser reconhecida mesmo por aqueles que nunca tinham pisado um museu. O enorme lustre feito com vinte mil tampões higiénicos femininos não está em Versalhes (segundo a artista, foi-lhe dito que a peça não se adequava ao local), mas quem visitar o palácio até final de setembro pode encontrar outras obras icónicas de uma carreira surpreendentemente curta para conter tantos nomes conhecidos, como os sapatos Marilyn, feitos de panelas e tampas, e os Corações Independentes, recriação irónica e contemporânea de um dos grandes símbolos nacionais, a filigrana, às mãos dos tempos que correm.

Os símbolos nacionais são, aliás, parte marcante da obra de Joana e, nesta exposição, há a filigrana, a renda do Pico, as tapeçarias de Portalegre e os têxteis de Nisa, entre outros produtos bem portugueses. Quando Joana se expõe, é um país inteiro que leva consigo, como fez agora, em Versalhes. O guarda-roupa da equipa ficou a cargo da dupla portuguesa Storytailors, o catering do jantar de inauguração foi assegurado por José Avillez, servido em louça Vista Alegre, Mariza encheu o palácio com fado e os textos do catálogo são de Valter Hugo Mãe.

Construída sobre as dicotomias artesanal e industrial, privado e público, tradição e modernidade, cultura popular e cultura erudita, a obra de Joana Vasconcelos não é apenas o resultado do talento puro, é, também, o produto de “uma artista empreendedora, que sabe aliar a qualidade artística indiscutível ao espírito empresarial necessário para vingar internacionalmente”, como a descreve Francisco José Viegas. Contudo, apesar de saber conjugar seu trabalho com o lado menos romântico da Arte, Joana mantém-se fiel a si mesma. Na inauguração da exposição de Versalhes, não escondeu o seu desapontamento pela censura feita ao seu lustre. “Estou mais do que dececionada. É uma peça com um simbolismo fortíssimo sobre a mulher, que integraria perfeitamente o espaço e, portanto, não tê-la aqui é, para mim, uma grande lacuna.”

As críticas ao vazio da sua arte, ao absurdo da sua obra, ao seu espírito empresarial, a tanta coisa, afinal, continuam, mas também Joana Vasconcelos segue, triunfante, em frente. Em 2013, a artista representará Portugal na Bienal de Veneza. No entretanto, basta-lhe o mundo.


Fotogaleria


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Lilicoptère, 2012. Helicóptero Bell 47, plumas de avestruz, cristais Swarovski, folha de ouro, tapetes de Arraiolos, entre outros.

Piano Dentelle, 2008-2011. Piano de meia-cauda Steingraeber & Söhne, banco de piano, croché em algodão feito à mão.

Marilyn (PA), 2011. Panelas e tampas em aço inoxidável, cimento.

Pavillon de Thé, 2012. Ferro forjado, plantas de jasmin.

Mary Poppins, 2010. Tricô e croché em lã feitos à mão, malha industrial, tecidos, adereços, poliéster, cabos de aço.