Vindimas: viagem no tempo através dos cestos

No Douro, o terreno acidentado, moldado em socalcos, ajuda a explicar o charme: é praticamente impossível colocar máquinas ali, a fazer o trabalho de centenas de mãos a quem a experiência ensinou a firmeza do toque, centenas de olhos que o tempo treinou para distinguir as melhores uvas.

Todos os anos, a partir de setembro, quintas espalhadas pelo país promovem programas de vindima, que prometem ilustrar uma das mais enraizadas tradições portuguesas. Aqui, depois de participarem na vindima, os turistas pisam a uva a pé, ao som de acordeões e concertinas, com o mosto morno a ligá-los à sua história, às suas terras.

Porém, a realidade é que, cada vez mais, a maquinaria se vai sobrepondo ao homem. Poucos são os grandes produtores que mantêm o método tradicional de pisa, mas ainda há quem assegure, como a Taylor’s, que, “apesar de cara e trabalhosa, a pisa a pé ainda é a melhor forma de alcançar uma extração suave mas completa, produzindo vinhos com profundidade de estrutura e de sabor, e equilibrados”.

O trabalho árduo que se inicia por todo o país, dos íngremes socalcos do Douro às vastas planícies do Alentejo, logo pela manhãzinha, mas que, hoje, não é realizado apenas pelos trabalhadores mas também pelos muitos turistas que afluem às quintas, na esperança de aí descobrirem vestígios de um passado que muitos não chegaram, sequer, a conhecer.

Em algumas quintas, os turistas têm a opção de reservarem parte do lote das uvas que eles próprios pisaram para fazerem um vinho de colheita particular, que depois de engarrafado leva o seu nome no rótulo. Um detalhe extra para quem quer tornar a experiência de participar na vindima ainda mais forte e sentida.

Para quem quer ter a certeza de uma pisa tradicional, existem as quintas que integram a rede das adegas históricas, onde os tonéis e as pipas são ainda utilizados para sossegar a fermentação do gosto e calibrar os melhores vinhos.

Paredes meias com o Douro, a região dos vinhos verdes oferece a experiência única das vindimas em vinhas altas, ditas de enforcado, com as escadas e os baldes.

Com máquinas ou pelos métodos de pisa tradicionais, a festa está sempre garantida. Homens e mulheres continuam a chegar de todo o país, de todo o Mundo, para participar nas comemorações de mais uma vindima. A música enche o ar e os cantares tradicionais servem de embalo aos petiscos que se fazem acompanhar, claro, com vinho. De norte a sul do país, setembro é mês de vindimas e de reencontro de tradições, pelo menos enquanto durar a memória, muito, muito depois do lavar dos cestos, que é como quem diz, de acabar a vindima.


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Os famosos socalcos vinhateiros do Douro.

A história e tradição nas vinhas alentejanas.

A apanha manual das uvas ainda se mantém em algumas regiões.

Os turistas podem juntar-se à equipa.

O terreno acidentado impõe a apanha manual.

Cabazes de uvas prontos para seguir para o lagar.