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Gente Barclaycard

Carminho, fadista do mundo

Com mais de 30 mil discos vendidos e dupla platina, Carminho canta e encanta pelo mundo fora, com voz e alma que dão originalidade ao fado tradicional.








Nasceu numa família de fadistas e cresceu entre tertúlias de fado; venceu, em 2005, o prémio Revelação Feminina, pela Fundação Amália Rodrigues, mas foi só depois de ter passado um ano a viajar pelo mundo e a desenvolver ações de voluntariado na Índia, no Camboja, em Timor e no Peru, em 2006, que Maria do Carmo Rebelo de Andrade, conhecida como Carminho, descobriu que a sua vocação é cantar, que é desta forma que é feliz e que faz os outros felizes.

Carminho é, hoje, uma das vozes maiores do fado e assume que “dá tudo o que tem quando canta” porque foi “feita para cantar o fado”. Não é de estranhar, por isso, que provoque aplausos e emoções fortes quando fecha os olhos e abre a boca e a alma para cantar. O fadista Camané chegou mesmo a afirmar que “esta garota tem, na voz, toda a história do fado” e a artista não esconde que encontra, no fado tradicional, a sua grande influência (ou não fosse filha da fadista Teresa Siqueira), centrando-se no presente como uma fadista de 29 anos aberta às novidades que lhe chegam do mundo e respondendo à constante mudança através do que canta.

Desde que gravou, em 2009, o disco de estreia, Fado, produzido por Diogo Clemente, que assume também o lugar de viola de fado e, mais recentemente, o de marido da fadista, Carminho tem andado a levar o fado ao mundo, desde a Malásia ao Brasil, passando por Espanha, Áustria, Irlanda e Canadá. Aliás, foi no país-irmão que conseguiu realizar o sonho de gravar com três dos cantores que a influenciaram e foi do outro lado do Atlântico que gravou, cara a cara, voz com voz, a edição brasileira do seu segundo álbum, editado em 2012, Alma, que conta com Chico Buarque (Carolina), Milton Nascimento (Cais) e Nana Caymmi (Contrato de Separação). A fadista está ainda a colher os frutos dessas partilhas através de vários concertos muito aplaudidos e elogios na coluna semanal de Caetano Veloso no Globo. Caetano, que se emocionou com a atuação da portuguesa a cantar Sabiá (uma canção do exílio escrita por Tom Jobim e Chico Buarque, em 1968), afirmou que foi o que de melhor aconteceu na noite da gala dos Prémios da Música Brasileira.

Os duetos com cantores internacionais têm sido uma constante da fadista, depois do sucesso com Pablo Alborán, com quem continua a subir aos palcos (recentemente em Sant Jordi, em Barcelona). A propósito dos duetos, Carminho acredita que “são processos muito delicados, porque resultam da naturalidade e do complô do universo para que as pessoas se juntem”. A propósito, complementa ainda que “os encontros são sempre muito positivos para abrir mundo, para abrir os olhos e ver que há muito mais para além daquilo que nos rodeia... E para vermos que somos muito pequeninos no mundo e também que temos muita margem de progressão. Sempre!”, conclui a fadista do mundo.

“É muito difícil eleger apenas um fado na minha vida que ela é feita de muitos fados e cada um tem um papel principal em determinada altura da vida.”

Palavra de fadista

Fado: destino ou livre arbítrio?

No meu caso, foi destino. Desde que nasci, antes mesmo de saber bem quem era, já tinha muito presente e forte este amor pelo fado, por ouvir as guitarras, por ouvir o que as pessoas diziam e tentar entender os sentimentos delas.

Qual o fado que elege na sua vida?

É muito difícil eleger apenas um fado na minha vida porque ela é feita de muitos fados e cada um tem um papel principal em determinada altura da vida. Posso dizer que Escrevi o teu Nome no Vento foi um fado que me marcou muito porque a minha mãe o cantava e, depois, também pelo facto de eu assumir essa história, torná-la minha e tê-la gravada no primeiro disco. Este fado tornou-se importante em vários âmbitos, quer pelo testemunho da minha mãe, quer pelas belezas do poema e da música, quer por ter esta oportunidade de tornar meus alguns fados que já existiam e que são, para mim, uma prioridade.

Quem escolheria para cantar num dueto consigo?

Há muitos duetos que eu sonhava fazer, mas muitas dessas pessoas já não estão cá, como é o caso do Freddy Mercury, dos Queen, uma das personagens do mundo da música que eu mais admiro. Também me identifico com Peter Gabriel, Paco de Lucia e muitos outros músicos em áreas muito diferentes da música.

Que palavras ou expressões usa com maior frequência?

Digo muitas vezes a palavra “porém”. E a minha mãe já se ri, porque eu faço comparações e o “porém” vem sempre a propósito. E não deixa de ser uma boa palavra!

Se sofresse um naufrágio e pudesse salvar apenas um fado, qual seria?

Complicado… Acho que escolheria o Fado Menor, que é um dos fados mais bonitos e ricos, dentro da sua simplicidade extrema, que já foi cantado por tantas almas e que foi veículo de tanto alívio… Porque este é um fado muito forte que alivia a alma.