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Gourmet

O culto subtil do chá

As qualidades terapêuticas e os rituais que exige a sua preparação transformaram o chá num culto.







“Há um encanto subtil no paladar do chá que o torna irresistível e suscetível de idealização... Este não tem a arrogância do vinho, a consciência de si próprio do café, nem a inocência afetada do cacau.” Foi desta forma que o intelectual japonês Kakuzo Okakuna definiu aquela bebida em 1906, em O Livro do Chá. Uma bebida que, em algumas sociedades, se afirmou como uma arte, um verdadeiro culto.

O seu prazer sensitivo e as suas capacidades terapêuticas têm conquistado novos consumidores nos últimos anos. Há mais lojas especializadas, pequenos recantos gourmet, maior oferta de produto e um conhecimento aprofundado dos seus benefícios, rituais, aromas. E se verão é sinónimo de bebidas frescas, chegado o frio, sabe bem pegar na chávena quente e deixar-se aconchegar pelo chá.

Para além da hidratação do corpo, o chá chama a si muitas outras razões para o seu consumo. É antioxidante, combatendo o envelhecimento e evitando a arteriosclerose, além das suas qualidades antivirais e antibacterianas. Alguns especialistas defendem mesmo que os seus compostos, sobretudo os do chá verde, são protetores contra algumas células tumorais e que o facto de conter flúor faz com que contribua para o endurecimento do esmalte dentário. Esta é, aliás, uma das razões que leva os japoneses a aconselharem os seus filhos a beber chá verde depois de comerem doces! Ou não tivesse o Japão uma cultura fortíssima aliada ao chá, com rituais milenares.

Sim, porque fazer um chá é muito mais do que simplesmente aquecer água e colocar uma saqueta. Há que saber escolher o bule, utilizar água fresca e escaldar o bule com água a ferver antes do processo que se segue. Só quando esta começar a ferver se deve deitar um pouco sobre as folhas ou a saqueta, até cobri-la, e deixar em infusão durante dois ou três minutos. Só depois deste momento, devemos deitar o resto da água a ferver, mexendo com uma colher, e servir cinco minutos depois.

Como escreve Wenceslau de Moraes, em O Culto do Chá, o ritual desta bebida atinge a sua plenitude quando chega aos seus consumidores e é oferecida, “multiplicando-se, então, em gestos sem conta, numa cerimónia onde o primor da cortesia e o convívio social fazem a apologia do seu culto (chanoyu)”.



Chás à escolha

O chá pode ser classificado em diversas variedades consoante o seu grau de oxidação, mas os mais comercializados são o chá branco, cujas folhas jovens não sofreram efeitos de oxidação, o chá verde, com folhas de primeira ou de segunda colheita e que também não tiveram oxidação e o clássico chá preto, com um processo de oxidação integral que lhe dá uma coloração mais forte. Em relação a este, todo aquele que é produzido fora da China recebe o nome da sua região de origem, como acontece com o Darjeeling ou o de Ceilão.

A maioria dos chás verdes é produzida na China e no Japão e destaca-se pelas suas propriedades antioxidantes. O verde é mais rico em catequinas e o preto, em flavonóides. O chá branco resulta numa infusão delicada e mais tranquilizante.

Muito procurado, hoje, é o Rooibos (de red bush). Não é verdadeiramente um chá, mas sim uma planta avermelhada, originária da África do Sul, com a qual se faz uma infusão semelhante ao chá preto.

Outras variedades mais conhecidas e consumidas são o chá de jasmim, que recebe flores de jasmim durante a oxidação, e o Earl Grey, traduzido, regra geral, numa mistura de chás pretos com essência de bergamota.

Camomila, erva-cidreira, tília ou menta são também referências com muitos adeptos, tratando-se estas de infusões feitas a partir de diferentes partes de plantas, mas não sendo necessariamente ervas.







A rota do chá

O chá está quente; os scones prontos a sair do forno e a fatia de bolo a olhar para nós. São várias as propostas. Só tem que se agasalhar e escolher o mote: chá com design ou glamour, mais sofisticado, acolhedor ou com traços de arquiteto, de tília ou erva cidreira, com torradas ou doces. Siga a rota.


Chá tradicional



Chá do Carmo

O ambiente é clássico e intimista. As cadeiras e mesas de madeira, as paredes forradas. Emoldurado pelo Largo que lhe dá nome, o Chá do Carmo em Lisboa oferece mais de cinquenta variedades de chás, para acompanhar com um scone, barrado com manteiga, ou com uma fatia de um bolo caseiro.

Lisboa

Largo do Carmo, 21 | 1200-096 Lisboa
Tel. 213 421 305

Horário (Inverno)
De terça a sexta, 9:00-20:00
Sábado, 10:00-20:00

Casa Chá de Serralves

Ocupa um pequeno espaço dos jardins da Fundação de Serralves. No verão a esplanada é o seu espaço maior; no inverno, a marquise de vidro transparente transforma o ambiente num misto de conforto e aconchego. Há quem lá vá só pelos scones. Ou pelo bolo de chocolate. O chá, esse não falta!

Porto

Fundação de Serralves, Porto | Rua Dom João Castro 210 | 4150-417 Porto

Horário
De terça a sexta, 12:00-19:00.
Sábados, domingos e feriados, 10:00-20:00



Chá com arquitetura



Tea Point

É um misto de restaurante e salão de chá, com assinatura de Paulo Lobo. Bem junto à Ribeira do Porto, o estilo faz lembrar os clássicos salões de chá. Luz baixa e alguns livros em estantes. A oferta é variada, podendo apreciar diversos chás e bolos para amaciar o estômago!

Porto

Largo de São Domingos 78 | 4050-545 Porto
Tel. 220 934 077

Horário
De segunda a quinta, 12:00-23:00
Sexta e sábado, 12:00-01:00

Casa Chá da Boa Nova

Um verdadeiro clássico ou a referência em casas de chá. A da Boa Nova, em Leça da Palmeira, é ponto obrigatório. Pela diversidade de chás que continua a oferecer a quem a procura, e pelos traços arquitetónicos únicos de Siza Vieira, que a esculpiram na rocha, junto ao mar!

Leça da Palmeira

Rua da Boa Nova | 4450-705 Matosinhos
Tel. 229 951 785

Horário
Todos os dias, 12:00-15:00 e 19:00-23:00
 



Chá com sabor a viagens

Ó-Chá Tea Room

Nasceu do sonho de mãe e filha. Viveram em Macau e para cá trouxeram vivências e experiências. No piso superior são servidos almoços. Ao lanche há scones, pão de especiarias, bolos caseiros à fatia e nem mais que 72 variedades de chás distribuídos por diferentes tipos: branco, verde, amarelo, preto, Oolong, rooibos e tisanas. No piso inferior encontra peças de mobiliário e decoração, escolhidas pelas proprietárias em feiras e mercados no interior da China, Tibete, Tailândia e Mongólia.

Lisboa

Rua Luís Augusto Palmeirim, 18
1700-275 Lisboa
Tel. 916 745 863

Horário
Segunda a sábado, 12:00-20:30

Poison d’Amour

Uma perdição para os amantes da pastelaria francesa, dos encontros românticos e das conversas sussurrantes à hora do chá. Basta entrar para se ser transportado para outra cidade, Paris. A montra delicadamente decorada de macarons, éclairs, tartes e tartelettes, bavaroises, mille-feuilles, Paris-Brest, croissants e brioches, mais ajuda ao ambiente...

Os chás, esses completam a escolha e são mesmo à escolha de cada um.

Lisboa

Rua da Escola Politécnica, 32
1250-032 Lisboa
Tel. 213 476 032

Horário
Segunda a sábado, 08:00-20:00

Rota do Chá

De decoração oriental, remete para outras paragens, mais longínquas e com outros sabores. Disponibiliza uma lista de mais de 300 sabores de chá e infusões. E, a acompanhar, alguns dos melhores scones, bolos ou quiches da cidade.
Nos dias mais temperados, há uma esplanada bem verdejante onde se pode deixar ficar.

Aproveite e relaxe com uma chávena de chá na mão.

Porto

Rua Miguel Bombarda 457 | Edifício Artes em Partes | 4050-379 Porto
Tel. 220 136 726

Horário
Segunda a quinta, 11:00-20:00 | Sexta e sábado, 11:00-24:00 | Domingo, 13:00-20:00



Chá com família



Casa de Chá de Stª Isabel (Vicentinas)

Chás pretos, de jasmim, de limão ou Earl Grey. Especialidades caseiras como scones, empadas, tarte de leite condensado, bolo russo com doce de ovos ou chiffon de chocolate. Nas Vicentinas, qualquer um se sente em casa. Porque nunca se esquecem de um pequeno mimo para quem chega e por ali fica.

Lisboa

Rua de S. Bento, 700 | 1250-233 Lisboa
Tel. 213 887 040

Horário
Segunda a sexta, 11:30-19:00 | Sábado, 16:00-20:00